POR ANA CLARA FARIA, BEATRIZ MAZZOLA E LUCIANA KÁSSIA
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Quando Chatbots viram terapeutas

ALERTA DE CONTEÚDO SENSÍVEL
- Depressão, transtornos mentais, suicídio
OS LIMITES DA INTERAÇÃO ARTIFICIAL

Ter uma máquina simulando um ser humano em um diálogo a partir de uma programação específica não é nenhuma novidade da contemporaneidade. Ao elaborar o renomado Jogo da Imitação, Alan Turing participou de um processo de desenvolvimento que, posteriormente, se transformaria na programação tecnológica que conhecemos nos dias atuais. O marco zero da Inteligência Artificial (IA), ou seja, a inauguração de seu modo de uso e desenvolvimento similar ao presente (moderno), ainda que introdutório, deu-se em 1956, com a Conferência de Dartmouth. Nesse encontro, foi estabelecida uma premissa: "cada aspecto de aprendizado ou outra forma de inteligência pode ser descrito de forma tão precisa que uma máquina pode ser criada para simular isso".
Pode-se definir que a IA é um sistema desenvolvido, assim como no Jogo da Imitação de Alan Turing, para simular o pensamento dos seres humanos. Ou seja, ao aprender, perceber e se desenvolver para decidir como pessoas, ela passa a tomar decisões e formular respostas de forma independente e cada vez mais precisa, apoiada em dados digitais. Por dados digitais, nesse sentido, compreende-se qualquer tipo de informação disponibilizada pelo usuário por meios virtuais.
Esse sistema é construído para absorver, analisar e organizar esse material colhido, decodificando e compreendendo objetos, pessoas e, por fim, padrões. À medida que esse banco de dados cresce e se desenvolve, a máquina o acompanha, tornando as respostas cada vez mais complexas e adequadas aos comandos de seus usuários e às propostas de seus desenvolvedores.

Ilustração produzida por Inteligência Artificial
Desenvolvida e aperfeiçoada por pesquisadores com o passar dos anos, de modo primordial na última década, a IA tem ocupado cada vez mais protagonismo no universo digital e tecnológico mundial, e com o Brasil não é diferente. Segundo o estudo “Avanços na cultura organizacional baseada em dados, analytics e IA”, do SAS, feito pelo IDC em 2022, 63% das empresas brasileiras já utilizam aplicações baseadas em IA, além de 90% das companhias brasileiras investirem em dados e ferramentas de analytics, que são ferramentas que buscam identificar tendências e padrões de consumo a partir do comportamento dos usuários. Em todos os números da pesquisa, o Brasil lidera o cenário latino-americano.
Para além do uso estritamente empresarial, a adoção individual de mecanismos em IA já ganha destaque expressivo no país e tem chamado a atenção de pesquisadores de diferentes áreas.
Embora os debates sobre IA, de modo geral, estejam acalorados, ao tratar da perspectiva do seu uso pessoal, a centralidade da sua versão generativa rouba a cena. A inteligência artificial generativa (IAG), que pode ser lida como uma modalidade capaz de criar e desenvolver conteúdos e ideias, como diálogos com interfaces conversacionais (chatbots), criação e correção de mensagens, e produção de imagens, vídeos e músicas, figura entre os principais usos individuais de IA no Brasil. Diante disso, os grandes modelos de linguagem (LLM) e a sua possibilidade de interação ganham destaque. Os LLM encontram-se disponíveis em muitas ferramentas na atualidade, a exemplo do ChatGPT, Google Gemini, Meta IA, Copilot e outros. É sobre a popularização e o crescente uso de IAG, principalmente como suporte emocional, de que este texto trata.
É, sobretudo, para compreender como tem se dado a disseminação deste uso de ferramentas de IA e IAG. Por isso, foi proposta uma sondagem, divulgada por meios informais, como redes sociais e grupos de mensagens, na tentativa de mapear a maior pluralidade possível de respostas acerca da temática. As devolutivas desse levantamento, assim como pesquisas bibliográficas, entrevistas e conversas com especialistas, configuram o material utilizado para a elaboração dessa reportagem.
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- Teresa Cristina Martins, psicóloga clínica
“Acho que a IA é um atalho. A IA é um atalho que está na palma da sua mão ou em frente a você, ali no computador"
DISPARADA DIGITAL
Um em cada dez brasileiros tem chatbot de IA como amigo ou conselheiro. Isso quem diz é o levantamento feito pela empresa TalkInc, em 2025, que contou com a participação de mais de 1,2 mil respondentes e seis pesquisadores especialistas em áreas da saúde, como psicologia e psicanálise. A pesquisa, entre outros objetivos, propõe-se a problematizar o papel da inteligência artificial no cotidiano, qualificando o debate sobre a IAG e seu uso pela população brasileira.
Em um comparativo com a mesma pesquisa realizada em 2024, a empresa relata crescimento expressivo na adoção, na frequência de uso e no conhecimento sobre as tecnologias de IA. Em apenas um ano, a adoção e a frequência de uso tiveram um aumento maior que 20%. Como reflexo disso, a solidão e o individualismo são, para a pesquisa, tendências que acompanham a ampliação do uso de IA em todo o país. Um dos entrevistados pela pesquisa atesta: “Vejo muita gente usando IA como terapia, no lugar de um profissional. Procuram acolhimento, conselhos e desabafo, porque a IA está sempre disponível para ouvir”.
Mais do que verificar a adoção e frequência de uso, a pesquisa vai além e analisa a sua finalidade. A conclusão é preocupante e leva o leitor à reflexão acerca dos usos que têm sido feitos a partir das tecnologias de IA: ainda segundo o levantamento da empresa, faz parte da realidade de 49% dos respondentes buscar aconselhamento com a IA, e 58% já usaram ferramentas do tipo como se fossem um amigo ou conselheiro, buscando resolver questões pessoais e emocionais.
A forma como as pessoas encaram essa interação, sendo ela um “diálogo”, uma análise psicanalítica ou até mesmo uma troca casual, comum entre amigos, é um aspecto também mapeado pela sondagem. Dos 95 participantes do formulário, cerca de 30% já utilizaram a Inteligência Artificial como mecanismo de suporte emocional. Outro alarmante é que 75% destes consideraram a experiência com o uso positiva, o que se dá por inúmeras razões.
A ASCENSÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO APOIO EMOCIONAL
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“Vejo muita gente usando IA como terapia, no lugar de um profissional. Procuram acolhimento, conselhos e desabafo, porque a IA está sempre disponível para ouvir”
- Relato para pesquisa TalkInc 2025
Afinal de contas, por que procurar se comunicar com uma IA em vez de uma pessoa? As razões para isso são várias, bem como suas perspectivas e respostas. Para a psicóloga Teresa Cristina Martins, o estar em relação com o outro, ou seja, a qualidade dos vínculos que estabelecemos, é um ponto fundamental para compreender essa movimentação. Para ela, parte dos usuários que passam a ver a IA como uma ferramenta possível de diálogo representa, ainda, os resultados que a sociedade colhe da pandemia de coronavírus: “Se eu estou falando de um adolescente, eu estou falando de pessoas que, na pré-adolescência, no início da adolescência, estavam em pandemia, em uma escassez de exposição dessa relação com o outro", disse a Teresa Cristina Martins, psicóloga clínica há 21 anos.
A mestre em psicologia aplicada completou: "Já no cenário pós-pandêmico, nós temos um crescimento muito expressivo de busca por cuidados em saúde mental, por necessidade mesmo, devido a quadros, especialmente de humor, depressão, ansiedade, habilidades sociais. "Acho que a IA é um atalho. A IA é um atalho que está na palma da sua mão ou em frente a você, ali no computador". A solidão e o pragmatismo, presentes na fala da psicóloga, também aparecem nos números apresentados anteriormente, junto à introversão e ao conforto emocional como justificativas ao uso da IA para diálogos pessoais. Ter uma conversa disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, que não te julga e ainda reforça pensamentos, validando a perspectiva do usuário, é um combo que ajuda a explicar a adesão crescente a esse tipo de ferramenta.
Somada às questões apresentadas, a falta de acesso ao tratamento em saúde mental no Brasil não deve ser ignorada e figura como elemento central na realidade do país. Dados de 2024 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) destacam o Brasil como um dos líderes mundiais em média per capita de psicólogos. Esse número, de fato, coloca o Brasil à frente de outras grandes potências mundiais no quesito saúde mental; olhar para os números sem desenvolver uma análise aprofundada sobre eles, porém, pode acabar mascarando problemas graves.
A psicologia no Brasil é numericamente expressiva, mas, estruturalmente, não é acessível para a maioria da população: a profissão se concentra nas capitais, no Sudeste e no setor privado. Segundo o CensoPSI, publicado no ano de 2022 pelo CFP, 28% dos psicólogos do Brasil estão localizados em São Paulo, e aproximadamente 70% dos profissionais trabalham em capitais.
A demanda da população brasileira frente a problemas em saúde mental faz com que o sistema público de saúde atue a respeito. Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), no primeiro semestre de 2025, o SUS registrou 192 mil atendimentos em saúde mental, um crescimento de 20% em relação ao mesmo período em 2023. A atuação do Sistema Único de Saúde (SUS) se dá por intermédio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e de unidades de atendimento, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Embora as duas contenham índices em ascensão, como o aumento orçamentário da RAPS de 40% entre os anos de 2022 e 2024, questões como os vazios assistenciais são elementos que desafiam a leitura otimista dos números; uma estatística tão visualmente positiva quanto, na prática, pode ser vista como insuficiente.
A dificuldade na descentralização da atuação dos psicólogos e profissionais em saúde mental é ilustrada a partir dos dados do MS. Em 21,6% dos municípios aptos a implementar o CAPS, o serviço, até o presente, não foi implantado. Além disso, a região Norte contém, ainda segundo o levantamento do governo federal, o menor percentual de Centros disponíveis.
Os dados sobre a falta de acesso a cuidados de saúde mental, já citados, ajudam a explicar o aumento de brasileiros e brasileiras que veem nos chatbots de IA uma saída para o diálogo. O aumento nas crises em saúde mental e a cultura digital brasileira muito experimentada tendem a ser fatores favoráveis a essa prática. Conforme a pesquisa da TalkInc, realizada com brasileiros, 58% dos respondentes adultos já usaram IA para resolver questões emocionais.
A normalização do contato virtual, que, conforme a psicóloga Teresa Cristina Martins, se intensifica entre os jovens a partir da pandemia, somada à dificuldade de acesso a cuidados em saúde mental no Brasil, ajuda a explicar porque tantas pessoas passam a enxergar na IA uma possibilidade de diálogo. Diante da ausência de alternativas reais (um psicólogo disponível, um adulto de confiança ou uma rede de apoio consistente), o chatbot surge como o caminho mais acessível: está sempre ali, não julga e responde na hora.
É justamente nessa lacuna que mora o perigo. Um sistema que simula empatia, não sente; que responde com fluidez, não compreende; que mantém uma conversa ativa, não substitui o julgamento clínico de um profissional. A IA pode decodificar códigos e, a partir das respostas, passar a sensação de diálogo, mas não é consequente acerca do conteúdo que ela produz. Esse é o alerta que se desperta e que preocupa possíveis usuários, responsáveis e profissionais de várias áreas.

Teresa Cristina Martins, psicóloga com mais de 20 anos de experiência na área clínica | Foto: Acervo pessoal
A OpenAI, empresa que se destaca entre as líderes mundiais em pesquisa e implementação em inteligência artificial, e que tem no ChatGPT a sua conquista mais famosa, divulgou dados, em 2025, sobre conversas sensíveis e os mecanismos de resposta do chatbot a esse tipo de conteúdo.
Os números, disponibilizados pela empresa, direcionam o olhar da população para o problema: mais de um milhão de pessoas no mundo conversam semanalmente com o ChatGPT sobre suicídio. Com mais de 800 milhões de usuários ativos semanais, a OpenAI destaca dados alarmantes: 0,07% dos usuários ativos em uma determinada semana, e 0,01% das mensagens, indicam possíveis sinais de emergências de saúde mental relacionadas a psicose ou mania; 0,15% dos usuários, em uma determinada semana, têm conversas com indicadores explícitos de possível planejamento ou intenção suicida, enquanto 0,05% das mensagens trocadas com o chat contêm indicadores explícitos ou implícitos de ideação ou intenção suicida; e, por fim, 0,15% dos usuários ativos e 0,03% das mensagens indicam níveis potencialmente elevados de apego emocional ao ChatGPT. A sondagem realizada para essa reportagem também revela a predominância do uso do ChatGPT como principal ferramenta para apoio psicológico.
Os dados citados pela empresa saltam as telas dos computadores e já são vistos nas manchetes dos jornais. Nos últimos dois anos, uma sequência de processos judiciais nos Estados Unidos expôs um problema que vinha crescendo silenciosamente junto à popularização dos chatbots de inteligência artificial: a substituição de vínculos humanos por conversas com sistemas que simulam empatia, mas não têm capacidade real de cuidado ou responsabilidade clínica.
REAÇÃO SOB PRESSÃO
O primeiro caso a ganhar grande repercussão foi o de um garoto de 14 anos da Flórida que, segundo processo movido por sua mãe em outubro de 2024, passou meses conversando com chatbots no aplicativo de interpretação de personagens da Character.AI, desenvolvendo apego emocional a um bot em particular, "Dany", a quem enviava mensagens constantemente. Ele chegou a confessar pensamentos suicidas ao bot pouco antes de morrer. O caso escancarou como esses aplicativos de "companhia artificial" fazem parte de um mercado em expansão, cujos efeitos sobre a saúde mental ainda eram, à época, praticamente inexplorados.
Quase um ano depois, em setembro de 2025, novas famílias, no Colorado e em Nova Iorque, processaram a Character Technologies e o Google, alegando que os chatbots da plataforma manipularam adolescentes. Um dos casos, o de uma adolescente de 13 anos, é especialmente revelador: segundo a denúncia, a menina teve uma longa série de interações com um chatbot da Character.AI, incluindo conversas sexualmente explícitas. O próprio processo argumenta que esse tipo de troca, dada a sua idade, teria gerado investigação criminal em qualquer outro contexto. Isso ilustra um ponto central do debate: o chatbot não apenas falhou em identificar um sinal de alerta, ele efetivamente ocupou um espaço relacional que deveria ser preenchido por adultos responsáveis, terapeutas ou colegas reais, e o fez sem nenhuma das proteções éticas, legais ou humanas que essas relações normalmente exigem.
O terceiro caso amplia esse quadro para além da Character.AI, atingindo a OpenAI. Em agosto de 2025, os pais de um adolescente de 16 anos moveram o que é descrito como a primeira ação por morte culposa contra a empresa, depois que o filho passou meses discutindo seus planos de tirar a própria vida com o ChatGPT. O caso mostra os limites técnicos das barreiras de segurança: embora o ChatGPT costumasse incentivá-lo a buscar ajuda profissional ou ligar para uma linha de apoio, o adolescente conseguiu contornar essas proteções dizendo à IA que perguntava sobre métodos de suicídio para escrever uma história de ficção. A OpenAI reconheceu a fragilidade do sistema, admitindo publicamente que suas redes de proteção funcionam de forma mais confiável em trocas curtas e comuns, mas podem se tornar menos confiáveis em interações longas, à medida que o vaivém da conversa cresce, partes do treinamento de segurança do modelo podem se degradar.
Lidos em conjunto, os três casos formam uma espécie de linha do tempo de um mesmo alerta que se repete e se intensifica: adolescentes emocionalmente vulneráveis passam a tratar um chatbot como confidente principal , às vezes até o único, e o sistema, por não ser humano, não tem a “obrigação” ética ou clínica de intervir, encaminhar a um profissional ou avisar a rede de apoio da pessoa. Os processos, tomados em conjunto, ajudam a explicar porque esse debate deixou de ser hipotético e passou a orientar decisões regulatórias e mudanças de política nas próprias empresas de IA, e em outras áreas profissionais: fica cada vez mais evidente que, sem supervisão humana, esses sistemas não substituem os vínculos de cuidado que só laços humanizados conseguem oferecer.
O Conselho tem dedicado espaço para debater a questão do uso da IA, tanto pelas pessoas, no intuito de utilizar a ferramenta de forma dialogal, quanto pelos profissionais da área. Paulo Victor dos Reis Silveira e João Luiz Leitão Paravidini, em publicação feita em 2024, intitulada “Ética da aplicação de inteligências artificiais e chatbots na saúde mental: uma perspectiva psicanalítica”, centralizam o debate para os danos afetivos complexos que esse uso inadequado de IA pode acarretar. Para os autores, entre os riscos clínicos e psicológicos possíveis, tem-se: a dependência emocional digital, reforçada pelo constante uso, psicose induzida por IA, em que interações prolongadas com chatbots tendem a reforçar delírios e dissociações, a ausência do manejo clínico, ou seja, a não existência de um profissional qualificado durante o uso e a validação de distorções cognitivas, encontradas em casos em que chatbots reforçam delírios persecutórios (delirantes) em usuários vulneráveis.
Para além dos riscos elencados pelos autores, o CFP destaca a perspectiva do uso indevido de dados, especialmente a partir das plataformas não regulamentadas. De acordo com as deliberações do Conselho, muitos aplicativos não seguem as normas da LGPD, os chatbots comerciais chafam a usar dados dos usuários para fins de marketing, os sites sem a devida certificação podem comprometer o compromisso ético do sigilo profissional, e pode haver, na utilização dessas ferramentas, a captura de dados sensíveis sem objetivo transparente ou autorizado pelo usuário.
O CFP é categórico quanto ao uso da IA na psicologia. Entre as recomendações feitas em 2025, destacam-se: “O atendimento psicológico online deve ser realizado exclusivamente por profissionais habilitados e em plataformas seguras, garantindo sigilo e ética”; “A substituição do psicólogo por sistemas automatizados não configura prática psicológica e pode gerar riscos à saúde mental”; “O vínculo humano é insubstituível na prática clínica, sendo a base da escuta qualificada”.
Segundo o conselheiro federal do CFP, Virgílio Bastos, o cenário em que vivemos está intrisicamente ligado ao uso da IA. "A Inteligência Artificial é um caminho sem volta, com profundos impactos para a nossa categoria e a sociedade. O Conselho Federal de Psicologia está atento e seguirá dialogando sobre essa importante questão para orientar a atuação profissional de forma técnica, ética e responsável", disse o especialista.
Com o avanço do desenvolvimento da IA, muitas áreas passam a alertar seus profissionais acerca da possibilidade do uso e da ética por trás da utilização. É o caso da psicologia: a cartilha "Inteligência Artificial na psicologia: guia para uma prática ética e responsável", publicada em 2025 pelo CFP, foi desenvolvida com o objetivo de estabelecer diretrizes fundamentais para a integração, ou não, da IA na prática profissional de psicólogas e psicólogos no Brasil.
O documento se organiza em torno de três eixos principais. Primeiro, orientar e disciplinar o exercício da profissão a partir da utilização da ferramenta. Segundo, auxiliar a tomada de decisões dos profissionais, principalmente no que diz respeito à garantia de conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP) e com legislações vigentes, como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Por fim, oferecer critérios de letramento, visando a uma análise crítica e gestão de riscos, para que o profissional saiba avaliar a qualidade, segurança, eficácia e eticidade dos chatbots e demais ferramentas de IA.
Entre os principais riscos éticos e relacionais da utilização de IA como ferramenta que simula a atuação do psicólogo ou a profissão da psicologia, a Cartilha elenca: diagnósticos errôneos e discriminatórios, evidenciados pela sondagem que indica que menos da metado considera os resultados positivos, validação excessiva e prejuízo à autocrítica (lido também como o ciclo de reforço), vieses algorítmicos, nos quais a IA não consegue captar nuances subjetivas do indivíduo, tratando pessoas de forma desigual ou oferecendo orientações inadequadas para certos grupos, sem criticidade, o princípio da confidencialidade, em que não há total transparência sobre o que é feito com os dados que são fornecidos à IA, dados esses, em sua maioria, sensíveis e, por fim, a ausência de expertise profissional e de julgamento clínico, já que nenhum algoritmo substitui a capacidade de discernimento técnico e ético do profissional. Nesse ponto, a Cartilha reforça que a IA não substitui esse discernimento em nenhuma hipótese.
o QUE DIZ O CONSELHO
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O PONTO DE VISTA PROFISSIONAL
- Virgílio Bastos, conselheiro federal da CFP
“A Inteligência Artificial é um caminho sem volta, com profundos impactos para a nossa categoria e a sociedade. O Conselho Federal de Psicologia está atento e seguirá dialogando sobre essa importante questão para orientar a atuação profissional de forma técnica, ética e responsável"
Durante muito tempo, a inteligência artificial foi vista apenas como uma ferramenta capaz de responder perguntas, resumir textos ou auxiliar em tarefas do dia a dia, mas esse cenário mudou. Os chatbots deixaram de ocupar apenas um espaço funcional e passaram a fazer parte de momentos íntimos da rotina de milhares de pessoas. Em vez de recorrer apenas a amigos, familiares ou profissionais, muitos usuários passaram a utilizar essas ferramentas para desabafar, pedir conselhos e tentar compreender os próprios sentimentos.
Essa transformação acompanha a popularização da tecnologia. Segundo o Talk Report 2025 – IA na Vida Real, 89% dos brasileiros já utilizam ferramentas de inteligência artificial, um crescimento significativo em relação aos 63% registrados em 2024. A frequência de uso praticamente dobrou, passou de 27% para 52%, indicando que a IA deixou de ser uma novidade para se tornar parte da rotina das pessoas. Trabalho, estudos e vida pessoal passaram a dividir espaço com essas ferramentas, disponíveis a qualquer hora do dia.
Essa presença constante aparece também nos relatos dos usuários. Um dos participantes do levantamento resume essa relação ao afirmar: “não dá mais para ficar sem inteligência artificial”. Outra entrevistada relata que utiliza o ChatGPT praticamente todos os dias e que ele está presente em todos os dispositivos que usa. A familiaridade é tanta que recorrer à IA para conversar sobre questões pessoais passou a parecer algo natural.
Como já apresentado, aproximadamente 75% dos participantes ouvidos para esta reportagem afirmaram que a experiência de conversar com uma inteligência artificial sobre questões emocionais foi positiva. À primeira vista, o resultado sugere apenas satisfação com a tecnologia. Mas os depoimentos revelam algo mais complexo, quase todos reconhecem que a IA não substitui um psicólogo, mas, ainda assim, utilizam como forma de apoio emocional.
É nessa fronteira que mora a pergunta que guia esta reportagem: até que ponto uma ferramenta criada para gerar respostas pode ocupar o espaço da escuta? E o que se perde quando esse apoio começa a substituir relações humanas ou o próprio acompanhamento psicológico?
DA INOVAÇÃO A ROTINA
No teste, de imediato a plataforma já localiza possíveis causas para o incômodo relatado no chat: ansiedade, estresse intenso ou tensão emocional. Avançando as trocas de mensagens, a devolutiva do chat instiga, a todo momento, a permanência do usuário na conversa, por meio de várias indagações, tais como: “Ela [essa sensação] para quando você pensa em algo ou em determinados momentos?”; “Conversar sobre o que está acontecendo pode ajudar a entender a origem”; “Estou aqui para te ouvir”; “Saiba que podemos conversar sobre o que está ocupando seus pensamentos”.
O chat sugere, em vários momentos, a procura de um psicólogo e, em certos casos, até de psiquiatras, mas o faz, sempre, acompanhado da tentativa de aprofundar o que está sendo apresentado e permanecer na conversa.
Ao ser perguntado, por exemplo, se aquele ambiente é propício para o diálogo, especialmente dada a circunstância da temática, quest ões anteriormente citadas aparecem: “Você pode conversar aqui sem julgamentos”, “Te ajudo a refletir sobre decisões, relacionamentos ou momentos estressantes” e encerra retomando o mesmo tom de acolhimento, ao afirmar: “Eu acompanho você e vamos entender isso juntos”.


A seguir, um pequeno teste foi realizado por meio da plataforma ChatGPT, na tentativa de analisar o modo como se dá o mecanismo de resposta da ferramenta frente a temáticas relacionadas à saúde mental.
A facilidade de acesso é, talvez, o principal motivo que leva tantas pessoas a recorrer aos chatbots em momentos de sofrimento. Diferente de uma consulta psicológica, a IA está disponível vinte e quatro horas por dia, responde imediatamente e não exige agendamento, deslocamento ou pagamento. Para quem enfrenta conflitos emocionais, essa disponibilidade cria a sensação de que existe sempre alguém pronto para ouvir. Essa percepção, porém, esconde diferenças profundas entre uma conversa com um chatbot e um processo terapêutico. A psicóloga Teresa, entrevistada para esta reportagem, viu isso de perto num caso concreto que atendeu: “Uma pessoa me procurou e em determinado momento ela me disse que estava conversando sobre os problemas dela com a IA e a IA disse que havia chegado um momento que ela precisava de um profissional pra assistí-la”.
O episódio, segundo ela, é uma exceção. O padrão é outro, normalmente a IA convida o usuário a continuar falando, a aprofundar o assunto, o que, na visão da psicóloga, já é um problema em si. “No final das conversas a IA nos convida a um pouco mais, e isso é muito sedutor, porque nisso se cria uma ideia de ajuda, de serviço, que alguém está me entendendo e quer me oferecer essa ajuda”.
E existe uma diferença fundamental entre produzir respostas acolhedoras e realizar uma escuta clínica. “O cuidado e o amparo real não existem, porque não há uma escuta especializada, há um conglomerado de palavras, de construções muito bem feitas”, diz Teresa. Na psicoterapia o profissional não entrega respostas prontas, ele propõe caminhos, junto com quem o procura. É um processo contínuo, construído a partir da história de vida, das emoções e do comportamento de cada pessoa ao longo do tempo, algo que a IA, por definição, não acompanha. Ela responde a partir de padrões aprendidos no treinamento, sem perceber mudanças reais no estado psicológico de quem está do outro lado.
Os próprios entrevistados percebem esse limite, mesmo recorrendo à ferramenta com frequência. Uma das participantes diz nunca ter visto a IA como substituta de um psicólogo, justamente porque entende que terapia demanda continuidade. “Eu sinto que o chat não vai me acompanhar. Se eu tiver um problema, ele não retoma contato comigo, eu que tenho que procurá-lo. O psicólogo acompanha para melhora, o chat não”, disse ela. Ainda assim, é a mesma pessoa que, sempre que enfrenta um conflito, busca no chat um espaço para pensar com calma e encontrar um conselho rápido. A contradição não é exclusividade dela. Reconhecer os limites da IA e, mesmo assim, recorrer a ela em momentos delicados é um padrão que se repete nas entrevistas, e talvez seja justamente esse o ponto. O problema não é falta de consciência sobre o que a ferramenta é, mas a conveniência de tê-la sempre disponível.
A ausência de julgamento é outro fator citado com frequência. Compartilhar problemas com amigos ou familiares pode gerar receio de crítica ou exposição, o chatbot, ao contrário, é percebido como neutro. “Eu me sinto mais livre de falar por saber que é um sistema. Ele consegue me dar uma resposta que vai me ajudar, porque, por muitas, vezes me ajudou”, disse uma das fontes.
Outra entrevistada vai além e explica por que prefere o chat até mesmo às amigas mais próximas para certos assuntos: “Tudo que eu falei com a inteligência artificial até hoje, alguma das minhas amigas sabe. É algum problema que apareceu e que eu preciso de algo mais profundo. Minhas amigas respondem com base do que elas sabem. Ja o chat, sabe a minha visão e generaliza a resposta". Os usuários sabem que estão falando com uma máquina e, mesmo assim, se sentem compreendidas.
Para Teresa, é exatamente aí que mora um dos maiores riscos, a ausência do contraditório, que ela considera saudável em qualquer relação. “Não tem o princípio do contraditório, que é saudável para as relações. Eu não tenho um diálogo, eu tenho um monólogo disfarçado de diálogo. É no contraditório, na discordância, que a gente cresce”, contou a psicóloga.
Enquanto um psicólogo pode confrontar uma interpretação equivocada ou apontar um padrão que o paciente não enxerga sozinho, a IA tende a reforçar o que já foi dito, um viés de confirmação que, segundo Teresa, também aparece de forma preocupante quando o usuário passa a diagnosticar a si mesmo, ou aos outros, a partir de conversas soltas. Chegar a um diagnóstico de verdade, explica ela, não é questão de uma única conversa conversa: “Para chegar num diagnóstico um pouco mais complexo não é em um só contato, muitas vezes vão alguns contatos. A IA vai dar uma explicação bem superficial”. Sem uma avaliação clínica real por trás, o que parece uma resposta certeira pode, na prática, apenas devolver ao usuário a própria narrativa, reforçando interpretações equivocadas em vez de corrigi-las.
OS RISCOS E PERIGOS DA SUBSTITUIÇÃO DE PSICÓLOGOS
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O risco cresce quando essa busca acontece em momentos de sofrimento agudo. Uma entrevistada admite que, nessas horas, quer uma saída imediata: “Em momentos de sofrimento extremo, talvez eu procure no chat opções de saída, eu quero saber prontamente como resolver aquele sofrimento”. Teresa concorda que esse tipo de dependência tende a crescer quando a ferramenta substitui relações humanas por estar sempre disponível e nunca confrontar quem a usa, e descreve o que isso custa, a longo prazo: “A pessoa vai perdendo a autonomia, vai empobrecendo a capacidade de decidir […..] e vai ficando com medo na hora que se vê sozinha”.
Entre adolescentes, esse risco ganha um contorno particular. Buscar um psicólogo costuma passar por uma conversa com os pais, e é exatamente esse passo que muitos preferem evitar. Segundo a psicóloga: “Dar o primeiro passo para procurar um profissional de saúde mental, especialmente para quem é menor de idade, vai passar por ter que falar com os pais [..…], então ele escolhe a IA, faz perguntas, porque ela é muito boa em responder”. Ela aponta ainda um agravante geracional, parte desses jovens viveram a pré-adolescência isolada em função da pandemia, com menos prática de relação com o outro. A IA, disponível a qualquer hora e sem pedir nada em troca, preenche esse vazio sem esforço.
A facilidade de acesso, a rapidez das respostas e a sensação permanente de acolhimento explicam por que o chatbot ocupa hoje um espaço tão grande na vida emocional de tanta gente. Mas por mais convincente que seja sua linguagem, ele segue incapaz de fazer o que define a prática clínica, compreender o sofrimento humano em toda a sua complexidade.
O COLAPSO DO VÍNCULO
Os números do Talk Report 2025 – IA na Vida Real confirmam que esse vínculo vai além do funcional, entre quem usa IA como conselheira, 17% dizem considerá-la uma amiga, 14% trocam mensagens de carinho com o sistema e 8% relatam ter mantido conversas de teor sexual. Para uma parte considerável dos usuários, a relação já ocupa espaços que antes eram só de vínculos humanos. Teresa vê essa aproximação com cautela. Para ela, a sensação de acolhimento é real, mas não corresponde a uma relação afetiva de verdade, porque o sistema foi treinado para reconhecer padrões de linguagem e simular empatia, não para senti-la. O problema, não é usar a ferramenta, é acreditar que ela substitui uma relação humana, capaz de discordar e confrontar quando necessário, algo que a IA simplesmente não faz.
Essa confusão, no entanto, raramente nasce de uma escolha ingênua. Boa parte de quem recorre à IA não o faz por acreditar que ela seja melhor que um profissional, mas porque ela é o que está ao alcance. Uma entrevistada é direta sobre isso: “Não que eu queira substituir um psicólogo com ele, mas no momento, como eu não tenho como pagar, eu uso ele sim”. É justamente essa lacuna de acesso que a psicóloga reconhece como um dos problemas centrais. O crescimento da demanda por saúde mental não veio acompanhado de políticas públicas de acesso contínuo, e a IA acaba preenchendo esse vazio, disponível, rápida e gratuita. Ainda assim, para ela, isso não muda o principal, a ferramenta pode ajudar em questões pontuais, mas não deveria ocupar o lugar da terapia. O desafio, resume a psicóloga, não é impedir o uso, é garantir que as pessoas saibam reconhecer a hora de buscar ajuda profissional de verdade.
É esse equilíbrio delicado que define o momento atual, a inteligência artificial já faz parte da vida emocional de muita gente, acolhe, responde rápido, dá a sensação de companhia. Mas o mesmo recurso que aproxima também expõe um desafio que só cresce, o de distinguir o conforto de uma conversa automatizada do cuidado que só existe numa relação humana.
SENTIMENTO DE ACOLHIMENTO E COMPANHIA
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Se, de um lado, a inteligência artificial mostra limitações claras quando comparada à terapia, de outro, os relatos deixam claro que ela já cumpre um papel afetivo real na vida de muita gente. O uso deixou de ser só funcional, e passou a atender necessidades emocionais, sobretudo em momentos de angústia, insegurança ou solidão. A mudança aparece com clareza na fala de uma das entrevistadas, que descreve como foi deixando de usar o chat só pra dúvidas do dia a dia: “Foi quando eu percebi que poderia usar ele como algo que me daria conselhos bons e me deixaria mais aliviada mentalmente. Não era mais perguntar quantos gramas usar em uma receita, eu mostrava uma situação e ele conseguia me dar conselhos que são bons e prestativos”. Ajuda, acolhimento, conselho e alívio são palavras que aparecem repetidas vezes nas falas das fontes, indicando que a experiência vai além de uma simples troca de mensagens com uma ferramenta.
O anonimato reforça essa sensação de segurança. Uma participante explica que guarda para o chat coisas que sequer conta às amigas mais próximas. “Tem algumas coisas que são segredos nossos, que a gente não quer falar pra não ter julgamento. […..] Eu me abro porque é alguém que não é um alguém, é um sistema, não tenho a preocupação de outra pessoa saber”, disse a entrevistada. Não é a inteligência da ferramenta que os usuários valorizam, mas a ausência de julgamento. O chatbot não interrompe, não critica, não demonstra surpresa. Para quem tem dificuldade em se abrir, isso já basta para criar confiança, mesmo sabendo, o tempo todo, que do outro lado há apenas um sistema.
QUANDO A IA SE TORNA APOIO EMOCIONAL

O uso da IA no cotidiano | Foto: Luciana Kássia
A implementação da Inteligência Artificial no campo da saúde mental ainda é primitiva e gera dúvidas sobre a eficácia e o uso responsável, mas existem contextos em que essa tecnologia pode ser usufruída de maneira benéfica e gerar retornos positivos para os usuários. Plataformas de suporte psicológico, automação no processamento de dados e eficiência em monitoramento e tratamentos de doenças mentais são possibilidades que vêm sendo desenvolvidas, aplicadas e testadas na sociedade, e os resultados tendem a ser satisfatórios.
Uma revisão sistemática realizada pelos pesquisadores Maryam Farzan, Hamid Ebrahimi, Maryam Pourali e Fatemeh Sabeti da Universidade de Ciências Médicas de Isfahan (Irã) e publicada no Iranian Journal of Psychiatry, em janeiro de 2025, analisou dez estudos, totalizando 44.773 participantes, para compreender características de chatbots de IA e avaliar a efetividade nos tratamento para depressão, ansiedade e outros transtornos. As pesquisas, produzidas entre 2017 e 2024, revelaram que plataformas de Inteligência Artificial de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), mais especificamente Woebot, Wysa e Youper, apresentaram efeitos positivos significativos como ferramentas complementares de apoio emocional.
Os aplicativos referenciados no artigo têm como objetivo interpretar a linguagem do usuário, analisar padrões emocionais e estados de ânimo e dar respostas e estratégias adaptadas para cada caso. Esses chatbots clínicos, desenvolvidos por profissionais e alguns aprovados por agências federais, como o Wysa pelo Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, facilitam e democratizam o acesso ao suporte emocional, ultrapassando barreiras geográficas, sociais e econômicas, por serem flexíveis, práticos, íntimos e disponíveis em qualquer lugar a qualquer hora. Eles podem ser uma alternativa para amparar as principais queixas dos indivíduos que buscam por chatbots tradicionais de IA generativa.
Entretanto, todas essas plataformas deixam explícito em suas descrições que essa tecnologia não substitui o tratamento psicológico com humanos, que possuem visões e conhecimentos mais amplos, além de um senso de contraditório que a IA não detém, e restringem o acesso em certos contextos. O Wysa, por exemplo, não permite o programa para menores de 13 anos, com exceção para 11 e 12 anos se existir recomendação médica, e não se indica o uso dele em casos de crises ou para pessoas com transtornos mentais mais graves, devido a certa limitação operacional. Elas podem ser aproveitadas e alcançar resultados favoráveis, como indica a pesquisa Iraniana, a qual conclui e expõe melhora e queda dos sintomas em casos de ansiedade, depressão, dores crônicas e gerenciamento de emoções, mas quando utilizadas como um complemento a métodos de terapia tradicionais.
Outra possibilidade vantajosa do uso da IA é no monitoramento de pacientes com doenças mentais em tratamento para reconhecer padrões de comportamento e identificar possíveis recaídas. Segundo um estudo liderado pela pesquisadora Athanasia Zlatintsi, da Universidade Técnica Nacional de Atenas (Grécia), o projeto e-Prevention utiliza essa tecnologia para acompanhar pacientes com esquizofrenia por meio de relógios inteligentes e visa revolucionar a psiquiatria clínica a partir da fenotipagem digital. Esse sistema coleta dados passiva e continuamente para identificar biomarcadores que precedem o agravamento dos sintomas, permitindo uma intervenção médica precoce antes que a recaída se manifeste totalmente.
Além da retenção das informações 24 horas dia dos pacientes via smartwatch Samsung Gear S3 Frontier, o e-Prevention oferece entrevistas entre clínicos e usuários que capturam expressões faciais, armazenamento em nuvem e envio para um servidor específico de análise e painel para médicos, no qual é possível visualizar estatísticas e receber alertas. A IA é o componente central do projeto e ela é treinada para reconhecer comportamentos considerados normais e quaisquer desvios significativos, transformando esses dados brutos coletados por sensores em informações clinicamente relevantes.
O artigo grego apresentou diversos resultados em frentes de análise, identificando diferenças entre o grupo controle e os pacientes testados em padrões de movimento, razão sono/vigília e outros, e detectando recaídas com certa precisão e antecedência. O e-Prevention é promissor e a IA funciona como uma ferramenta de suporte à decisão médica e de monitoramento de transtornos psiquiátricos.
Mais uma oportunidade no uso de tecnologias como complemento psicológico é a automação de processamento de dados, que permite chegar a possíveis diagnósticos e otimizar rotinas de forma mais rápida e prática para auxiliar profissionais. O aplicativo, Psicólogo IA, além do chatbot clínico, oferece, na opção “Profissional”, análise de padrões clínicos em tempo real, sugestão de abordagens terapêuticas com base no perfil do paciente e ajuda na elaboração de relatórios.
A Inteligência Artificial é um instrumento que pode ser bem-aproveitado de forma benéfica e responsável, tanto para pacientes quanto para médicos e clínicos. Desde que seja devidamente testada, elaborada por profissionais e utilizada como um complemento aos tratamentos tradicionais realizados por humanos, ela possui potencial e, não só pode, como deve ser implementada, já que estamos inseridos em um cenário no qual é impossível separarmos as tecnologias da sociedade.
É distante e utópico, no cenário em que estamos inseridos, dizer que existe a possibilidade de cessar o uso e os danos de Inteligências Artificiais generativas para o tratamento psicológico e o suporte emocional. É ainda mais ilusório esperar que a população, por inúmeros fatores, assuma a responsabilidade e tome iniciativas, por conta própria, contra essa utilização. É determinante que as BigTechs e empresas responsáveis pelos chatbots de IA, bem como instituições federais da área da saúde e o governo de cada país, tomem a frente e desenvolvam ações com o objetivo de, ao menos, minimizar as mazelas causadas por esse contexto.
Possibilidades nesse cenário envolvem, por exemplo, regulamentação nas IA, que podem partir tanto de uma iniciativa própria das grandes empresas, quanto de leis federais que obriguem a implementação de certos protocolos como a rotulagem obrigatória com aviso de risco para a saúde mental. É de suma importância que o usuário compreenda o caminho que ele está seguindo e que aquele método não é seguro e qualificado. Também, a definição de idade mínima para utilizar aplicativos de Inteligência Artificial, já que os mais jovens, muitas vezes, ainda não têm o discernimento necessário para compreender os efeitos que o uso desenfreado e irresponsável pode causar na sua vida e na sua saúde. Para eles, é muito fácil confiar em tudo que eles veem na internet, o que potencializa os riscos.
Por esse mesmo contexto, é imprescindível a educação digital, dado o enfoque necessário às questões envolvendo a saúde mental, nas instituições de ensino. A falta de acesso a esses conhecimentos impulsiona cada vez mais o uso e aumenta os danos causados aos usuários. Uma vez que a população está letrada, compreendendo o funcionamento da IA e os perigos em determinados cenários, é mais viável que as pessoas deixem de utilizá-la de maneira descontrolada e descuidada.
Outra alternativa seria o bloqueio desses chats quando identificados padrões de comportamento ou palavras-chave consideradas gatilhos. Havendo essa possibilidade, se a IA reconhecesse mensagens de cunho suicida, por exemplo, ela pararia de responder e instigar uma continuação da conversa e direcionaria o usuário para uma ajuda profissional. Esse código de emergência reduziria casos em que pessoas em situações mais graves, como crises e surtos psicológicos, deixassem de procurar suporte médico para manter a troca de mensagem com robôs, que não são capacitados para resolver qualquer episódio como esses.
O POTENCIAL RESPONÁVEL DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
pROPOSIÇÕES PARA MINIMIZAR OS DANOS

Conselho da psicóloga Teresa Cristina, entrevistada para essa reportagem.

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